A cristaleira

Sabe essas histórias que são contadas de um jeito simples, espontâneo e tão bonito, que a gente vai parece que entrando nelas e vivendo de verdade as emoções da personagem?

Pois é. Lendo A cristaleira, isto aconteceu comigo. Fui direto virando menina e entrei na casa de Marina. E ali, naquele espaço cheio de objetos antigos e de delicadezas de avó, me senti aconchegada e segura.

E vivi o fascínio diante da cristaleira, do lustre de pingente e da estatueta de menina. Mas, ora, que fui entrar na vida de Marina num momento difícil. Justo quando seus pais pensavam em separação! E fiquei assustada, insegura. Tive muito medo. E fui, assim, feito ela e os cálices gordos guardados na cristaleira que se equilibram em pés tão finos, me equilibrando também.

Entre os silêncios estranhos, os gestos bruscos e as brigas dos pais e as conversas sobre paineiras floridas, os contos de fadas, as tranças e as ternuras da avó.

Entre o frágil e o sólido, o real e a fantasia. Ah, que entrei numa história linda. Como a vida. Densa e tão delicada… (Hebe Coimbra)

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A troca

“Quanto vale um baú cheio de ouro?”

Com esta pergunta tem início uma narrativa surpreendente, na qual uma troca leva à outra, fazendo com que a história pareça não ter fim e o mundo fique “meio de cabeça para baixo”.

E que criança não gosta disso? Que criança resiste ao exercício da velha e boa arte da troca?
Que criança não se encanta por aquela dúvida que surge de repente onde antes parecia reinar uma verdade absoluta?

Pois esse livro, que constrói e destrói valores como uma divertida brincadeira, conquista o leitor
já na primeira frase, ao mesmo tempo em que revela, página após página, que todos os valores são sociais, construídos e relativos.

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A Velha Guarda da Portela

Este livro registra com riqueza de detalhes a história de um dos principais grupos musicais brasileiros, que se mantém ativo desde a sua criação, em 1970. Além da importância documental, A Velha Guarda da Portela é uma obra poética e intimista, pois resulta da admiração e da amizade que os autores dedicam aos sambistas portelenses há mais de 30 anos.

Para compreender a essência da música da Portela, que se caracteriza pela forte presença de temas ligados à natureza e pela sofisticação da melodia e da harmonia das composições, os autores convidam o leitor não só a passear pelo alvorecer do subúrbio de Oswaldo Cruz, no final do século XIX, como também a frequentar os famosos quintais dos sambistas, a conhecer cada um deles de perto, e ainda a um desfile imaginário e apoteótico, onde se encontram os personagens portelenses de todos os tempos.

Como afirmou tia Surica, “o livro será um arquivo de nossa história”. E, por este motivo, uma leitura obrigatória para os amantes da cultura popular brasileira.

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ABC: curumim já sabe ler!

ABC

OS ABECEDÁRIOS são estudados e indicados por grandes especialistas em alfabetização em vários países, há séculos.
“Para aqueles que gostam de apresentar novidades digitais para crianças, há o “ABC – Curumim já sabe ler” (Manati), com ilustrações de Mariana Massarani, organizado por Bia Heztel e Silvia Negreiros, destinado a Ipad, mas que também pode ser adquirido em formato impresso. Indicado para crianças a partir dos três anos, como leitura acompanhada, ele apresenta as letras e palavras com elas iniciadas, juntamente com desenhos, em diferentes graus de dificuldade.” Graça Ramos

Vejam a matéria na íntegra clicando aqui.

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Aí tem coisa…

Dalila tinha um problema: como esconder o próprio rabo? Enroladinho ele escapulia; pendurado no braço, como bolsa, escorregava. Mas o que fazia surgir esse problema? A lei maluca de um rei: era proibido usar rabo mais longo do que o da rainha. Ora, mas rabo não se usa, nasce-se com ele! Este é o mote para Graziela Hetzel fazer uma crítica social ao autoritarismo e seus desmandos. Dalila e Camila, duas macacas, mais o mico Janjão descobrem que “tem coisa” atrás da ordem real — a prisão dos bichos acusados pelo tamanho do rabo, a apropriação de todas as frutas da mata pelo casal real e seu plano de fuga (após a venda dos produtos para o dono de um circo). Tal descoberta mobiliza os três personagens a uma ação para libertar os presos e desmantelar os planos, com a ajuda da guarda real. Se o rei e a rainha queriam conhecer o mundo, bem… eles o fizeram mas… dentro de uma jaula de circo, realizando macaquices em troca de comida. O livro recebeu Menção Especial do Prêmio Luiz Jardim da União Brasileira dos Escritores em 1993. Bem-humorado, o texto, coloquial, traz as marcas da oralidade. A narrativa perde parcialmente seu ritmo quando Dalila trama a “revolta da mata”; a adesão da guarda real é quase imediata (supõe apenas a constatação das reais intenções dos governantes pelo chefe dos guardas), criando previsibilidade nos acontecimentos seguintes. O desfecho final, porém, retoma a fluidez e o tom bem-humorado. As ilustrações em branco e preto de Graça Lima são muito criativas e interessantes, valorizando a obra. A ausência de outras cores não compromete o olhar sobre os desenhos, o que desmistifica certos critérios pelos quais o livro infantil tem que ser, necessariamente, muito colorido para agradar às crianças. (S.M.F.B. / Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, v. 10, 1999)

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Antes do depois

Escrever o que ao leitor sobre este Antes do depois? Dizer o que desse autor que, dos quatro cantos, já recebeu tantas homenagens, tantos prêmios, elogios? Como contar da beleza contida nestas páginas? Descrever de que maneira uma prosa que toca fundo o leitor por sua tanta poesia? Relatar com que palavras personagens complexos, profundos e, ao mesmo tempo, de genuína simplicidade? Como narrar com precisão a força das imagens que aqui se revelam, se o que se lê é apenas delicadeza? Relatar com que palavras — pitadas?, homeopáticas? — a dose exata de humor a ressaltar o seu encanto? Como dar a conhecer a importância destas páginas, resgate de pedaço de nossa história, testemunho de um tempo em um ponto de nosso país, se elas são puríssima história, uma tremenda ficção? Só lendo, só lendo… Difícil explicar um ajuste tão perfeito entre a mágica da literatura e o talento de um autor. (Hebe Coimbra)

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Bagunça no mar

Se você, querido leitor, ainda não viu uma sereia de verdade,

E, seja qual for a sua idade, tem essa curiosidade,

Mergulhe de uma vez neste livro destrambelhado.

Garanto que você não vai ficar molhado,

E não há perigo de morrer afogado.

Mas tome muito cuidado:

Você pode morrer de rir!

(Tino Freitas)

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Bebê-tubarão

Mamar é mais que um instinto ou hábito: é uma das maiores delícias da vida de um bebê. Porém, a cada minuto, surge uma nova aventura, um novo desafio, um velho hábito a ser abandonado na vida de todo filhote de ser humano. Porque, a cada dia, surge uma nova revolução em seu corpo, que cresce, se transforma e precisa se adaptar. “Nasceu um monte de dentes na boca do Joca! Joca está parecendo um tubarão. E tubarão não mama não! Dente serve para quê? Para morder. Para roer. Para mastigar…” E agora, será que esse bebê-tubarão vai querer parar de mamar?

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A Garagem, o Bebê-Tubarão e o crescimento

Ah, o crescimento das crianças… tem o físico, o emocional, o intelectual… mas somente os termos que rondam a constatação “meu filho está crescendo” já provoca arrepios nos pais. Não estou julgando, estou confessando.

Existe uma beleza dos livros infantis que é a sutileza. Adoro ir degustando um livro dedicado a ir para as mãos, olhos e ouvidos de uma criança e ver que nem tudo está ali, que tem algo escondido, ou algo para ser sentido num cantinho da alma. Não estou dizendo que os livros devem ser assim para serem bons, mas que estes pequenos presentes também são uma forma de homenagear a infância.

Aconteceu com A Garagem (Ed. Dedo de Prosa), escrito por Bea Pecci e ilustrado por Silvana Rando. E também com Bebê-Tubarão (ed. Manati), da dupla Bia Hetzel e Mariana Massarani. O primeiro conta a história de uma menina que tinha duas irmãs, uma garagem para brincar e uma mãe incansável em promover uma infância cheia de tintas, colas, papéis. Um dia, esta menina foi à escola e não entendeu nem um pouco por que tinha de estar, agora, em companhia de crianças desconhecidas.

Ela não queria deixar as lembranças da garagem. Por dias se recusou a entrar na sala, até que algo novo a surpreendeu e finalmente a escola passou a fazer algum sentido.

A Garagem é uma história curta mas cheia de profundidades. Além da ideia e textos, o projeto gráfico e a disposição das sempre incríveis ilustras da Silvana dão um peso especial para a perspectiva da criança. É livro para ser lido com as pequenas mãozinhas, inteiro, com mediador preparado para vários “bis”.

Bebê-Tubarão também me fez ver minha filha crescer em um virar de páginas. Embora eu já tenha passado da fase exata do contexto do livro, ele simboliza também para os pais esta vida passando diante de nossos olhos. Uma mistura de saudade e aceitação.

A brincadeira desde o título é com os dentes que, sim, são um símbolo forte no crescimento das crianças. Podemos dizer que o tema principal é o desmame, mas, no fundo, ele é apenas um pretexto, pois todas as crianças entre quase 2 e 4 anos estão interessadas nesta mágica da vida em que tudo muda, este jogo de perdas e conquistas. No livro, tudo começa com o menino Joca ainda mamando no peito da mamãe (e aparece peito, sim, viu, pessoal! Pois é linda a amamentação!). Depois, vem a mamadeira, um lugar que abriga mais que o leite, pois a vida é mais que leite… Em seguida, são os dentões do Joca que aparecem. “Joca está parecendo um tubarão”, nos dizem as autoras. E tubarão… ops… não mama. Mas, afinal, para que servem os dentes? E aí seguem outras cenas e situações que mostram as substituições ao longo da infância.

Como é que a gente aprende a perder e a ganhar ao mesmo tempo? Como lidamos com estas constantes “já estou grande” e “ainda sou pequeno”? E isso tudo está disposto em frases curtas, um projeto gráfico acolhedor (com formato arredondado nas pontas, etc) e uma série de ilustrações que revelam o que o texto não diz, cheias de detalhes e surpresas, representações engraçadas e tudo o mais que o traço de Mariana Massarani pode nos oferecer. Sempre digo que livros ilustrados pela Massarani deveriam estar na lista dos itens básicos de sobrevivência dos pequenos leitores: toda a infância tem que passar pelas crianças, adultos, bichos e cenários desenhados por ela e Bebê-Tubarão pode ser um jeito ótimo de começar.

(Esconderijos do tempo, por Cristiane Rogério. Link: http://esconderijos.com.br/a-garagem-o-bebe-tubarao-e-o-crescimento/)

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Berimbau mandou te chamar

Neste álbum ilustrado estão alguns dos versos das cantigas de capoeira. No ritmo da poesia popular e do traço de Mariana Massarani vibram as cores, a energia da luta e o toque mágico dos berimbaus. Mas a ginga, as esquivas e os golpes só se aprendem com os mestres. O rolê, a negativa, o aú, a meia-lua, a armada, a queixada, o martelo e a bênção estão nas rodas de valentes. Vem jogar capoeira! Berimbau mandou te chamar!

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Caixinha de música

Caixinha de música se insere perfeitamente na melhor genealogia da poesia para crianças no Brasil, na linha de obras-primas como Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, ou dos Poemas infantis, de Vinicius de Moraes. A sutilidade incorpórea das metáforas, a beleza cromática das imagens, o discreto humor e a musicalidade, sempre presente e nunca ostensiva, dão ao livro um poder encantatório que só poderá fazer a delícia dos seus pequenos leitores, e não somente deles, pois não haverá leitor sensível de poesia que não se aventure, nem que seja como por um saudoso mundo perdido, nas delicadas melodias dessa Caixinha de música, tecidas pela sensibilidade auroral de Roseana Murray. (Alexei Bueno)

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Colo de avó

Há quem diga que não tem avó ou que já teve e não tem mais, mas é engano. Todo mundo tem avó. Tem avó que a gente conhece, tem avó que a gente não chega a conhecer. Tem avó de sangue, tem avó por adoção. De um jeito ou de outro, nossas avós estão sempre com a gente: é delas que vem nosso jeito especial ou aquele ditado que ninguém da família esquece. Esse livro é uma homenagem ao tipo mais maravilhoso de avó: aquela que tem o colo mais macio, o abraço mais apertado e, no lugar do coração, tem um ninho, sempre pronto, à espera do netinho.

 

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Rosenana Murray. Illustrations by Elisabeth Teixeira. Manati. 34p.

ISBN 9788582510087

The book brings the affectionate world with plenty of imagination present in the relationship between grandmothers and their grandchildren. Grandmothers change their homes because their grandchildren are arriving. Grandchildren become pirates and grandchildren again, strolling in tricycles till reaching the tallest cloud. Or cloud the walking-stick turn into a little of everything: magic wand, a gigant arm, a fishing pole or a motor starter. Thus, the author is handcrafting dreams and poetry that put the reader in the warm and soft lap of grandmothers. (MB – Brazilian Selection of IBBY – Selection of Brazilian writers, illustrators and publishers – Bologna Children’s Book Fair 2016) 

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Controle remoto

Para ser pai, mãe e filho!

Esse é o tipo da coisa para a qual não há manual! Há sim, livros de psicólogos famosos, médicos consagrados, pediatras experientes, mas entre a teoria e a prática cotidiana, sempre vai uma distância, às vezes quilométrica.

Nessa história, os pais de primeira viagem, veem-se às voltas com os problemas de criar e cuidar de uma criança, passada a festa dos primeiros momentos. Até que descobrem, que junto com o bebê, tinha vindo o controle remoto. Pronto! Apertar botões é mole, e logo logo tudo funciona às mil maravilhas, uma vez que o uso generalizado e conhecido das funções das teclas não deixa dúvida: PLAY (pode brincar), SLEEP (hora de dormir), MENU (hora de comer), MUTE (silêncio total), REPEAT (faça o que eu digo), etc. E a melhor de todas: SAP, que vêm a ser “serviço de ajuda aos pais”!  Mas um dia o controle deixa de funcionar e o filho deixa de obedecer. Claro, era preciso trocar as pilhas. Mas nem assim, o problema fica inteiramente resolvido, pois era mesmo necessário procurar a assistência técnica. E só quando descobrem que o caso é de “controlerremotite aguda” é que descobrem também um jeito de ser família, de usar o diálogo e demonstrar o afeto.

Sem dúvida estamos diante de uma das obras mais originais dos últimos tempos! Uma maneira leve, simples, divertida e fantástica de criticar o abuso da tecnologia, as babás eletrônicas, o frequente despreparo de homens e mulheres, com os quais nos deparamos por aí, para as responsabilidades (e delícias) dos papéis de pais e mães.

Tino Freitas é músico e contador de histórias. Talvez por isso seu texto flua com tanta musicalidade. O humor é sua marca principal.

Mariana Massarani, ilustradora das mais premiadas, requisitadas e reconhecidas aposta no seu estilo: traços grossos contornando as figuras, como se fossem desenhados à lápis, preenchimentos de cores contrastantes, figuras sempre bem-humoradas, gestos inusitados, expressões inesperadas e fundo branco na página. O livro é charmoso também pela capa dura, pelo formato comprido, pela alternância entre os fundos verdes e o uso dos sinalizadores de “power” e “adiante”, teclas bastante conhecidas de um controle remoto.

O mais emocionante mesmo (ufa! o final de algo tão polêmico é sempre um risco!) é constatar que se pode mesmo abdicar dos aparatos eletrônicos e modernosos, para criar laços de afeto, diálogos e relações de proximidade. Mas o livro aponta isso sem moralismos e da forma mais lúdica possível. É pra ler e reler muitas vezes. (Celso Sisto / http://artistasgauchos.com.br/)

 

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Cuíca de Santo Amaro: o boquirroto de megafone e cartola

Poucas figuras da fulgurante vida popular da Salvador do século XX se imortalizaram na memória coletiva baiana como a do fabuloso cordelista, cantador e tipo de rua revisitado neste Cuíca de Santo Amaro: o boquirroto de megafone e cartola. Personagem de romancistas, cineastas, poetas e dramaturgos, o espalhafatoso vate do Elevador Lacerda se inscreve, na verdade, em uma longa dinastia da verve satírica, fescenina e maledicente da Bahia, com antecessores ilustres como o próprio Gregório de Mattos e Francisco Moniz Barreto. Crônica viva de seu estado, chicote dos maus políticos, e mesmo dos bons, divulgador impiedoso dos escândalos e vexames da sociedade, Cuíca de Santo Amaro é um dos imperecíveis mitos baianos, que aqui reencontramos de corpo inteiro.

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Curupira

As portas do teatro estão abertas. O espetáculo já vai começar, as luzes da plateia se apagam.

No palco, as cortinas abertas deixam o público a sós com a escuridão. Aos poucos, percebe-se uma luz suave que cobre o chão de folhas secas. Música e vento sopram das coxias.

Fecham-se as portas que separam o teatro da tarde ensolarada. Cresce o silêncio. A escuridão e os sons da mata engolem o mundo e fazem brotar um friozinho na barriga dos espectadores. Tudo é novo e enigma no teatro. Um assovio lá longe distrai o pensamento. Outro assovio… De novo e bem mais perto! Risos. Tem um engraçadinho na plateia — é o que o público pensa. Mas agora o assovio vem da coxia, e para lá também caminha o foco da atenção…

Curupira, meu amigo, é assim: um assovio aqui, outro mais adiante e, quando se vê… Não tem mais jeito. Não tem mais volta. É assim o coisinha: meio bicho, meio gente, meio assombração. Se é que pode haver três meios…

Quando se vê, o teatro engoliu a gente e Curupira está mais vivo e esperto do que nunca. O espectador-leitor-ator que se cuide. O engraçadinho está escondido onde ninguém poderia imaginar. Alguém aí ouviu um assovio?.

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Diário da montanha

Existe uma casinha, no alto de uma montanha, feita para abrigar uma única pessoa.

É ali que Roseana Murray se refugia por longos períodos para se esquecer do mundo e se lembrar dela mesma.

É ali que ela faz adormecer os laços com a civilização para despertar, junto com o fogo que acende para preparar o café da manhã, sua sensibilidade mais acurada.

Na montanha, os ruídos da natureza são tão fortes que calam um silêncio visceral no coração da poeta. Dentro dele ela escuta os ecos de sua ancestralidade, o rumor do fluxo sanguíneo em suas veias, o murmurar da seiva que escorre pelas árvores, os passos mais leves dos esquilos, o rufar da orquestra de asas que cortam o ar.

Sorte a nossa que nessa casinha, ao lado do fogo, haja sempre um caderno a provocar o silêncio de Roseana.

Sorte a nossa que vez por outra ela deixe a poesia escorrer pelas suas folhas em branco. Sorte a nossa que algumas folhas preenchidas desse caderno tenham sido presenteadas a esta editora!

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Roseana Murray reafirma nesse belo Diário da montanha o amadurecimento poético que se evidencia em cada nova obra desde sua estreia com Fardo de carinho. Sem preocupação com a rima tradicional, ela usa linguagem coloquial em que o ritmo e a originalidade das metáforas prevalecem. O primeiro verso do poema Raiz dá o tom telúrico do livro: “Começo pela raiz, pelo cheiro da terra que me impregna quando me perco de mim.”

Há longo tempo residente fora dos centros urbanos, Roseana se sente feliz e inspira-se em tudo em que a cerca: flores, pássaros, árvores, tempestades ou arco-íris. Na tranquilidade da vida rural e ao lado “do homem que me ajuda a transformar palavras em pássaros e a desfazer abismos e teias”, ela vive e escreve sua poesia bela e sensível, plena de lirismo e delicadeza.

Em edição caprichada da Manati, Diário da montanha é apresentado por Bia Hetzel e, sem dúvida, é o Melhor Livro de Poesia do ano que passou. (Justificativa dos votantes do Prêmio FNLIJ 2013, Produção 2012 / Laura Sandroni)

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Diário da montanha é uma experiência de delicadeza e intimidade com as palavras. Roseana Murray oferece aos leitores um olhar denso, mas ao mesmo tempo fluido, sobre a natureza e a existência. A edição é bonita e muito bem cuidada.  (Justificativa dos votantes do Prêmio FNLIJ 2013, Produção 2012 / Fabíola Ribeiro Farias)

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Os poemas de Roseana Murray são sempre gentis; nesse livro, de matéria autobiográfica, somos convidados a sentir a doçura do recolhimento montanhês da poética. (Justificativa dos votantes do Prêmio FNLIJ 2013, Produção 2012 / Luiz Percival Leme Britto)

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Ao longo das últimas décadas, os poemas de Roseana Murray encantam leitores de todas as idades em publicações para crianças e jovens. Diário da montanha mantém o mesmo encanto. Trata-se de um “diário”, o registro de momentos vividos e sonhados no silêncio da solitude de uma casa de montanha, onde os segredos da vida e da natureza se abrem para a poeta e leitores, em forma de versos livres que prescindem de ilustrações, mas nem por isso deixam de provocar imagens, sons e cores a quem os lê. O projeto gráfico sugere as características físicas do gênero textual apontado no título: capa dura, cores sóbrias, sem frieza, registros poéticos datados, respeitando uma lógica temporal. Abrindo e fechando as folhas internas do livro estão páginas que sugerem imagens de folhas de uma árvore que vão permanentemente brotar. Sem dúvida, um convite ao jovem leitor a entrar no mundo silencioso onde a poesia descansa e alcança sensibilidade plena de significados. (Justificativa dos votantes do Prêmio FNLIJ 2013, Produção 2012 / Maria Neila Geaquinto)

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Assuntos simples (borboletas, maritacas), temas que explodem em emoções, alegrias, dores, saudade. O nascimento de filhos ou o ato de cozinhar para quem se ama transforma-se em lirismo, em puro deleite poético para o leitor. A elegância e a sobriedade da produção gráfica guardam e complementam a exuberância/singeleza dos poemas de Roseana Murray. (Justificativa dos votantes do Prêmio FNLIJ 2013, Produção 2012 / Marisa Borba)

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O nome de Roseana Murray está incluído pela reconhecida excelência no panteão da poesia (infantojuvenil) brasileira. Suas obras mostram sempre rara sensibilidade no trato com as palavras, potencializando-as com seu estilo peculiar. Em Diário da montanha ocorre o mesmo. Os poemas falam de coisas do mundo, que Roseana percebe pela ótica da emoção inata que perpassa o seu fazer poético. Palavras simples, mas caracterizadas pela magia que os seres, as coisas e o mundo só deixam entrever àqueles verdadeiramente dotados de sensibilidade. Temas diversos são matéria de poesia nesse livro que nos remete a um lugar que o leitor desvenda e adentra, nutrindo-se da seiva da vida que a arte instaura. (Justificativa dos votantes do Prêmio FNLIJ 2013, Produção 2012 / Maria Teresa Gonçalves Pereira)

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Diario

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Elefantes nunca esquecem!

Um bebê elefante se perde na floresta, fica sozinho e é acolhido por um rebanho de búfalos. O tempo passa, o bebê cresce como membro do rebanho… E agora, quem ele é? Um elefante ou um búfalo?

Com seus versos livres e seu estilo nonsense, a escritora indiana Anushka Ravishankar inverte a lógica dos contos infantis tradicionais que contamos para nossas crianças há séculos. Assim, o desfecho da história surpreende e comove leitores de todas as idades.

Esta é uma das mais lindas e delicadas fábulas contemporâneas sobre temas como perda, adoção e inclusão.

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Estrelas de São João

Lina, a menina desta história, não tem tempo para ir à escola, brincar ou fazer amigos. Desde quando ainda precisava subir num banquinho para lavar louça, mora na casa de uma senhora de voz ácida, que só sabe lhe dar ordens.

Infelizmente, esta não é uma história incomum. Tantas e tantas Linas ainda há mundo afora…

Linas que inventam e de um pano amarelo fazem um sol para o seu quartinho úmido. Que fingem, são fadas, e o cabo da vassoura é varinha de condão. Que viram princesas, sonham, sonham, enquanto realizam tarefas de adulto. Linas que se escondem para esconder o choro e a saudade. Linas que se encantam com os objetos tão delicados, pequeninos, os quais elas, tão pequeninas também, precisam limpar, com a enorme incumbência de não quebrar nenhum. Linas que não esmorecem: quem sabe, no São João do ano que vem, elas ganham estrelinhas?

Só assim, só tecendo esperança, se torna suportável conviver com a mulher sem doçura que as Linas costumam chamar de madrinha… (Hebe Coimbra)

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Fábulas de Dona Maria (em bordado e poesia)

Quem conta um conto aumenta um ponto. E mais um ponto, e mais outro… Assim aconteceu com as fábulas que você vai encontrar neste livro. Originários da Grécia antiga, estes casos foram correndo o mundo, atravessaram séculos e séculos até chegarem aos ouvidos da Dona Maria, uma senhora que adora contar histórias para a garotada e, ao mesmo tempo, ilustrá-las com belas imagens bordadas à mão.

Venha se divertir com a astúcia e as peripécias de onças, cotias, urubus e outros bichos bem brasileiros em mais um livro do poeta Fábio Sombra. São cinco histórias narradas em versos de cordel, cada uma trazendo uma reflexão profunda sobre a natureza humana. Mais do que ensinar, são histórias que nos fazem pensar.

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Foto de Macaco

O macaco mora numa floresta que os turistas adoram visitar e fotografar. Ele faz pose e se comporta bem, mas um dia cansa de ser modelo e resolve virar o jogo: rouba a câmera de um turista e dispara pela mata, clicando tudo e todos que encontra! E agora? Quem quer posar para o macaco? Como serão suas fotos? Como será que ele vê o mundo??? O texto curto, leve e divertido deste livro é uma delícia para quem está começando a ler, e as ilustrações — feitas no estilo tradicional dos pintores patuas, do estado de Bengala Ocidental, na Índia — são uma maravilha para os olhos e para a imaginação de leitores de todas as idades.

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Glauber Rocha: mais fortes são os poderes do povo!

Do sertão baiano para o mundo, Glauber Rocha se afirmou meteoricamente como o nosso maior cineasta de todos os tempos e a mais poderosa personalidade surgida na cultura brasileira da segunda metade do século XX. Autor de clássicos eternos do cinema mundial, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, foi um dos criadores de uma visão total da nacionalidade, na restrita companhia de um Euclides da Cunha, de um Villa-Lobos, de um Guimarães Rosa. Para além do artista, contagiou todo um período da vida brasileira com a sua indignação, a sua inquietude, a sua busca irrefreável da utopia.

Neste livro, o poeta Alexei Bueno, grande conhecedor da história e da estética do cinema, traça um painel, uma síntese cinebiográfica ou biocinematográfica da trajetória do líder do Cinema Novo. Analisando cada filme e os momentos centrais da sua vida, nele o leitor encontrará um roteiro fascinante do sonho glauberiano, que é o sonho de todos os que aspiram por uma grande arte e uma grande nação entre nós, como as entreviu Glauber Rocha, o maior cineasta do Terceiro Mundo.

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Os anos 60, como os anos 20, foram desses períodos da vida humana nos quais, adormecidos os traumas do passado, o futuro parecia palpavelmente existir, não se reduzindo a um enevoado território do incerto. O pensamento demonstrava poder agir sobre a história, a arte sobre as consciências, a vontade sobre a própria vida, daí provindo a grande riqueza de homens e realizações em épocas como essas.

Entre nós, ninguém viveu e encarnou a década de 1960 como Glauber Rocha, o maior cineasta brasileiro. Se já havíamos tido um grande pioneiro como Humberto Mauro e o ápice solitário de Mário Peixoto, se em vários momentos o nosso cinema tentara apreender o essencial do que somos, nunca, nem antes, nem depois, a essência da nacionalidade se cristalizara nas telas como nos filmes de Glauber, epicentro do grande movimento criador do Cinema Novo. Estética e politicamente, sua obra sintetizou uma invejável e saudosa capacidade de crer, etimologia exata do seu próprio nome.

Se na precisa definição de Fernando Pessoa a função da arte é engrandecer, poucos, no Brasil, o conseguiram tanto como o autor de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

A trajetória trágica do povo brasileiro, seu sofrimento e esperança seculares transformaram-se em seus filmes na grande redenção da arte, como a alcançaram entre nós um Aleijadinho, um Castro Alves, um Euclides da Cunha, um Villa-Lobos, um Guimarães Rosa. Realizada a catarse, a elevação e a esperança permanecem como patrimônio inesquecível de cada espectador, assim como um precioso amálgama do que há de mais legítimo na cultura brasileira.

Pela meteórica brevidade de sua passagem, pela sólida permanência de sua presença, Glauber Rocha recebeu das mãos do destino essa rara perenidade de juventude que sempre foi considerada das mais invejáveis possibilidades humanas. Muito da mediocridade e do arrivismo do caldo de incultura com que teve de conviver entre nós desaparece a cada dia. Sua obra data perenemente da manhã de hoje, a afirmar que mais fortes são os poderes do povo! (Alexei Bueno)

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Gregório de Mattos: o poeta devorador

Se são relativamente escassos os dados biográficos sobre o “Boca do Inferno”, como acontece aliás com a grande maioria dos protagonistas da nossa história colonial, ninguém mais indicado para os agrupar e dar-lhes voz interpretativa que Fernando da Rocha Peres, pesquisador de velha data dos documentos relacionados ao mais extraordinário satírico da literatura brasileira, ainda que igualmente grande em quase todos os gêneros de poesia de sua época, da lírica à encomiástica, da religiosa à francamente fescenina.

Gregório de Mattos: o poeta devorador traça, dessa maneira, um perfil minucioso do que era a vida no Brasil e em Portugal do século XVII, completando com um fidedigno pano de fundo os dados documentadamente sabidos sobre a vida e a obra do genial e indomável poeta baiano.

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Jardins

Fazer poesia é arrumar palavras para transmitir um sentimento indizível… um sentimento que humaniza os homens. A mais linda poesia desperta esse sentimento como se fosse música ou imagem. Suas palavras são tão precisas e necessárias que desaparecem, como as notas da música ou os traços da imagem, no momento em que surge o indizível.

Criar um jardim é arrumar elementos da natureza para produzir uma emoção plena, indecifrável.

No mais lindo jardim o indizível germina como se a natureza fosse só poesia. As formas, as cores e a vida são tão precisas e necessárias que desaparecem, no momento em que os homens o penetram e vivenciam uma emoção indecifrável, aproximando-se dos outros seres da natureza.

Neste livro repousam a mais linda poesia e os mais lindos jardins, à espera de que o leitor os penetre com a mais singela delicadeza.

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José Saramago: o amor possível

José Saramago — o escritor português que conquistou, além de milhões de leitores apaixonados, o Prêmio Nobel de Literatura e vários títulos honorários — é antes e acima de tudo um humanista, um homem íntegro, inteiro e ativo como poucos, um cidadão do mundo, coerente e lúcido em seus mais de oitenta anos de vida plena.

Impossível não se ater à sua presença. Para quem passa ao largo, uma figura arrebatadora, alta, esguia, forte. Para quem o encara de frente, olhos e voz de encantador de serpente.

Nesta conversa com o jornalista e escritor Juan Arias, permeada pelo silêncio da poeta Roseana Murray e embalada pelas vagas e pelos vazios que emolduram a ilha canária Lanzarote, José recebe o leitor em sua casa, em seu íntimo, com o zelo de quem se prepara para um encontro de amor. Um amor que se entrega aos poucos e que será sempre possível para aqueles que insistem em não desistir da humanidade. (maio de 2003)

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Ludi vai à praia: a odisseia de uma marquesa

Limpar a Baía de Guanabara é uma tarefa para heróis como Hércules ou Ulisses? Aqui, não. Uma menina de 8 anos lidera esta aventura — uma verdadeira odisseia — cheia de peripécias surpreendentes e lances engraçadíssimos. Ludi é, ao mesmo tempo, parecida com qualquer menina da classe média brasileira e completamente original. Parecida, nas cenas em família, na escola e nas brincadeiras. Original, porque rompe os limites entre a realidade e a imaginação, mergulhando (literalmente) no fundo do mar e na fantasia.

Luciana Sandroni estreou em 1989. A crítica identificou nela mais uma digna herdeira de Monteiro Lobato, com sua linguagem viva, humor vibrante e imaginação solta. O sucesso trouxe prêmios e novas aventuras da Ludi, como Ludi na chegada e no bota-fora da Família Real e Ludi e os fantasmas da Biblioteca Nacional. Luciana é um dos principais nomes da literatura para crianças e jovens no Brasil hoje. Mergulhe, leitor, nesta aventura e veja se não é. (Luiz Raul Machado)

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Mati e Rita: a orca e a caiçara

Em setembro de 1993, Bia Hetzel avistou um grupo de orcas na Baía da Ilha Grande. Este foi o primeiro registro de avistagem da espécie no Rio de Janeiro.

Mas os encontros não pararam aí… A autora presenciou muitos outros shows de orcas no litoral brasileiro: dorsais negras rasgando águas cristalinas, saltos surpreendentes em frente às praias mais famosas do país.

No início, as pessoas ao seu lado sequer notavam a presença dos enormes animais. Todos pareciam pensar que as orcas viviam apenas em aquários! Aos poucos, porém, a divulgação das fotos e das informações vem “abrindo os olhos” da população. A cada dia multiplicam-se os relatos de encontros com baleias. Agora a pesquisadora se pergunta: como ensinar as pessoas a conviver em paz com os maiores predadores dos mares?

A resposta, mais uma vez, está na Baía da Ilha Grande: os pescadores caiçaras sempre souberam da presença de orcas em nosso litoral. É que, para eles, as orcas chamam-se “matis”. E quantas histórias os caiçaras têm para nos contar sobre anos de convivência pacífica com estes animais! Por isso, este novo livro de Bia Hetzel não é a história de uma pesquisadora de baleias, e sim a história de Rita, uma menina caiçara que aprendeu a ser amiga das matis.

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Mestre Bimba: corpo de mandinga

Com seu corpo de mandinga, Mestre Bimba tornou-se lenda no universo da capoeira e da cultura  baiana. Criador da capoeira regional, conhecido entre capoeiristas de todo o mundo como uma das figuras mais importantes na história da luta, Bimba é aqui retratado em corpo e alma por Muniz Sodré, seu amigo e discípulo e, também, um mestre do estudo dos signos, escritor e pensador.

O leitor interessado em capoeira, cultura negra, história, antropologia ou semiótica vai se deleitar vendo tomar corpo diante de seus olhos a lenda em que Bimba se transformou.

Mas não é preciso ser doutor ou lutador para apreciar este livro. É ao leitor em geral que está reservado todo o prazer deste jogo de linguagem sobre o jogo de corpo.

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Mururu no Amazonas

Mururu no Amazonas apresenta vários motivos para que sua leitura seja vivamente recomendada. É uma história sobre o Brasil e suas especificidades tão instigantes, contada com uma linguagem poética que envolve e acaricia pelos recursos linguísticos expressivos utilizados,  com um vocabulário saboroso típico da região, mas que não torna hermético o texto, pelo contrário, dá-lhe sabor, passando ao leitor impressões sensoriais que o seduzem. A poesia que perpassa a prosa conta a história de uma menina-moça, no limiar de descobertas e experiências pessoais, que serão o portal para uma nova etapa de sua vida. Flávia Lins e Silva narra com muita sensibilidade os fatos que a conduzem às mudanças, colocando a região Amazônica como pano de fundo e o elemento “água” como catalisador das transformações que envolvem a descoberta do amor, com prisão e liberdade embutidas. É um belo livro que prende a atenção pela vertiginosa viagem nas águas da região Amazônica no casquinho Mururu, impulsionada pela linguagem que se serve de termos e expressões caracterizadoras do espaço em que se movem os personagens. Ainda nos são apresentados aspectos de uma região distante fisicamente, que se torna próxima pelas palavras. (Justificativas dos Votantes do Prêmio FNLIJ 2011, Produção 2010 / Maria Teresa Gonçalves Pereira)

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Toda a ação se passa no rio Amazonas e nos seus afluentes. O leitor acompanha a trajetória de Dorinha, “uma menina-moça, menina-amazona, mulher-pássaro” e seu encontro com Piú, um caboclo amazonense tão amante da natureza quanto sua companheira. Juntos, eles descobrem a desova do “tracajá”, tartaruga que habita os rios amazonenses; as sumaúmas, árvores de porte gigantesco. Há uma bonita passagem do livro, reveladora da descoberta do amor, que merece registro: “Deitado comigo, Piú se faz homem, cada vez mais homem, e eu já não sou quem era: sou mulher inaugurada”. (Justificativas dos Votantes do Prêmio FNLIJ 2011, Produção 2010 / Neide Medeiros Santos)

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Há nas águas de Mururu no Amazonas borbulhas do poeta pantaneiro Manoel de Barros, que em Arranjos para assobios verseja:

“A gente é cria de frases. Escrever é cheio de cascas e pérolas.”

E é com cascas e pérolas que Flávia Lins e Silva tece a narrativa de Mururu no Amazonas. É a voz da menina-moça Andorinha (ou Dorinha como a chamam na escola) explicitando seu atendimento com as águas da Amazônia, onde passa seus dias.

“Não me fio na terra. Meu entendimento é com a água.”

E assim, Andorinha sai em seu casquinho Mururu pela imensidão das águas da Amazônia. Quer encontrar seu pai e também tracajás para o aniversário da mãe. Vai pelo mundo feito de águas no seu barco de uma só pessoa. Sente medos e fomes. Vai por igapós, rios e corredeiras até encontrar o caboclo Piú: um menino homem com gosto de fruta e cheiro de terra. No encontro das águas cristalinas e barrentas, ela deseja ser chamada de cunhã. E Dorinha se torna mulher. Flávia Lins e Silva traz ao leitor de Mururu no Amazonas uma prosa poética que flui no ritmo das águas, no tempo das águas… Às vezes mansas; às vezes como corredeiras, mas sempre límpida. Toda a transformação de Dorinha vem narrada mansa, delicada e tensamente. A autora não fecha o conto, como não se fecham as águas, os ventos e o tempo. (Justificativas dos Votantes do Prêmio FNLIJ 2011, Produção 2010 / Marisa Borba)

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Mururu é um casquinho, um barco de uma só pessoa que navega como uma folha solta na imensidão das águas da Amazônia. Mururu é o casquinho de uma menina-moça que se apresenta assim: “Sou como meu nome: Andorinha… Vou de rio em rio e, quando o mundo esquenta, me arremesso de barriga na água. Na escola, me reinventaram e virei Dorinha. Desde então, carrego essa divisão em mim: sou Dorinha por fora e Andorinha por dentro.” Junto então com essa menina-amazona, essa mulher-pássaro, protegido apenas pela coragem do casquinho, o leitor mergulha em uma história que flui com a força e a infinitude do Amazonas. Aventura, transformação, descoberta e liberdade engolem Dorinha e Mururu, e o leitor mal tem tempo de prender o fôlego ante a corredeira. Dorinha deixa a mãe e a casa flutuante em busca do pai, mas quem encontra é Piú, um caboclo, um menino-homem com gosto de fruta e cheiro de terra. Dorinha atravessa o encontro das águas de cristal do Rio Negro com o caldo barrento do Solimões e se torna mulher… E o leitor? Ah, o leitor deixa seus olhos e sua alma se inundarem de uma água meio-salgada meio-doce, e percebe que um pedaço dele mesmo juntou-se ao grande rio que atravessa a floresta e o tempo. (Bia Hetzel)

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Mururu no Amazonas é um livro lindo, dos mais belos que li nos últimos tempos. Seu texto denso, mas fluido como o rio navegado por Dorinha e Mururu, nos provoca e convida a experimentar as imagens e sons literários oferecidos pela narrativa. Uma narrativa amorosa, que cresce e ganha corpo – e calor e dor e liberdade –, como parece acontecer a sua autora. Flávia Lins e Silva que, com esse livro, se inaugura e se reinventa em macia e literária literatura. (Justificativas dos Votantes do Prêmio FNLIJ 2011, Produção 2010 / Fabíola Faria)

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Mururu é o nome dado a um casquinho, onde Dorinha, uma linda jovem, encantada pelo mar, navega pela imensidão. Um belo dia parte em uma viagem através dos afluentes do Amazonas, deixa sua casa, sua mãe e vai em busca de seu pai, que havia saído para caçar tracajá, mas o perde de vista e precisa seguir sozinha, enfrenta perigos, correntezas, cobras, outros animais e tempestades, com muita valentia, coisa de menina criada na natureza.

Sua viagem fica ainda mais bela quando conhece Piú, um caboclo, moço bonito, por quem se apaixona. Ao seu lado, Dorinha descobre a beleza do amor. Juntos seguem passando por muitos rios, fazendo amizades com os pássaros e distribuindo sua alegria pelo caminho.

A narrativa em prosa poética de Flávia Lins e Silva desperta a imaginação, desperta os sentidos, deixando o leitor embarcar nessa viagem ao lado de Dorinha e Piú. Aprendemos sobre a geografia do Amazonas, os afluentes e os mistérios que eles guardam, o nome de cada pássaro, cada árvore, de qualquer inseto por menor que seja. Mururu traz a Amazônia para dentro de cada leitor que, mergulhado na história, se embala com o ritmo, os sons, toda a estética própria da selva. Não foi sem motivo que Flávia Lins e Silva, além de ganhar o Selo Altamente Recomendável da FNLIJ, ganhou a premiação de Melhor Livro de 2010 para jovens. Com uma narrativa fluente e, pela primeira vez misturando aventura com algumas pitadas de poesia, Flávia presenteia seus leitores com um livro divertido, rico e sensível. Mais do que nos ensinar sobre a fauna e a geografia da Amazônia, ela ensina sobre o encantamento que a floresta – assim como a leitura – pode guardar, e que pode exibir para quem se aventurar sobre suas águas, feito um casquinho entre essas folhas que também nascem da madeira. (F.Freitas e Paula Cajaty, 2011, http://wp.paulacajaty.com/?p=3079)

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Nau Catarineta

Nau Catarineta é o mais célebre, o mais belo, o mais mítico dos romances marítimos do cancioneiro lusitano. Xácara anônima, oriunda da segunda metade do século XVI, é a perfeita prova do nível estético, da síntese lírica, da sabedoria e economia dramáticas a que pode chegar a poesia anônima do povo. Vários livros de grande erudição tentaram sem resultado estabelecer suas fontes factuais ou lendárias, enquanto ela continuava a ser simplesmente recitada ou cantada, em suas infinitas variantes, por todo o território de expressão portuguesa, do Algarve a Trás-os-Montes, nas terras de África ou nos Açores, na Ilha da Madeira ou no Brasil. O certo é que todo um clima trágico-marítimo, que era a realidade portuguesa desde o início da carreira da Índia, contribuiu para a origem do romance. O pavor do naufrágio, da calmaria, da fome no mar; o fantasma do canibalismo, a solidão, a saudade e as tentações no meio do deserto marinho, tudo isso vivia nas mentes e corações do povo heroico que criou a Nau Catarineta.

Uma longa pesquisa, em várias manifestações folclóricas no vasto mundo lusófono, conduziu Roger Mello à excelente versão dramática deste livro. Trabalho semelhante, de reinterpretação de muitas vertentes da nossa arte popular, serviu de inspiração para as suas maravilhosas ilustrações, que fazem deste álbum uma festa para os olhos e para a alma, uma celebração obrigatória para os que se interessam, em qualquer idade, pelas nossas mais fundas e autênticas raízes. (Alexei Bueno)

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O colar de pérolas

Quando eu era pequena, minha mãe me levava à praia quase todos os dias. A gente catava conchas, fazia castelos na areia, cavava túneis para chegar ao outro lado do mundo… Era uma farra. Até quando a gente não fazia nada (e isso era o que a gente mais fazia).

Com o silêncio de minha mãe aprendi a olhar para o horizonte e ouvir o silêncio do oceano. E com as histórias que ela me contava aprendi a navegar pelo silêncio.

Um dia, ela contou como nascem as pérolas. Disse que quando um grão de areia arranha a pele de madrepérola de uma concha, aos poucos vai-se formando uma casquinha de pele em volta desse machucado. A casquinha vai aumentando até engolir o grão, depois vai ficando redonda para que a areia perca a aspereza e não machuque mais ninguém.

Pois acho que foi assim, também, que nasceu a história desse livro. Nasceu de um arranhão dolorido que cicatrizou em pérola para proteger outras vidas.

Para a menina Alice, as pérolas do colar de sua mãe são salgadas como as lágrimas e a água do mar. Seu mundo é delicado, forrado de cortinas de madrepérola. Nele, devemos andar com a leveza de um gato para não provocar arranhões.

Enquanto o leitor mergulha neste livro, a maré de água salgada começa a subir e vai invadindo o seu mundo. Primeiro, ele sente um grão de areia a lhe incomodar e marejar os olhos. Depois, a dor constante desse grãozinho a riscar a pele da alma.

O que machuca Alice é o alcoolismo de sua mãe. O que nos machuca a todos é aprender a conviver com a dependência e as fraquezas humanas. A menina às vezes se fecha em concha. A sociedade às vezes também prefere se fechar à dor.

Mas a autora sabe contar histórias como ninguém, e sabe também como nascem as pérolas. Embalados por suas palavras e por seu silêncio, sentimos a maré baixar e afastar a água de sal e dor. (Bia Hetzel)

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O jogo de amarelinha

Nada aqui é velado. Nem o fel, nem o mel da construção de um relacionamento novo. A amarelinha é o jogo com que Lúcia tenta avançar na sua relação com a enteada, Letícia. É, ao mesmo tempo, o jogo no qual Letícia não quer avançar para não chegar no céu, porque no céu é onde sua mãe está. Com maestria, Graziela cria um paralelo entre o relacionamento das duas e a brincadeira. Jogar amarelinha é difícil. Acertar a pedra e pular, ora em dois, ora em um pé só, sempre dentro de um estreito limite. Requer paciência, firmeza, suavidade de movimentos e, sobretudo, equilíbrio. E, num paralelo maior, Graziela consegue, com mão certeira, ir avançando casa a casa neste seu novo texto, equilibrando, primorosamente, um tema denso e uma linguagem delicada. (Hebe Coimbra)

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O Lobo

Lobo Manati internet

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Dentro desta história há um outro livro de histórias. Um livro grosso onde mora um lobo cinzento que ganha vida e voz pelo afeto do pai de Lília. Todas as noites o pai embala a menina com fantasia, versos, amor, cantigas e imagens até que ela se veja envolvida em um silêncio acolhedor, que chega com o peso do mundo para fechar seus olhos sonolentos e depois vira pluma a flutuar nas histórias que continuam em sua imaginação. Mas, uma noite, o pai não vem para casa. Por quê? Para onde ele foi? Quando ele volta? O que os adultos não explicam em palavras as crianças captam no ar.

Neste livro, o leitor deve deixar sua sensibilidade falar para preencher os silêncios da autora e guardar para sempre, para si, o amor essencial que só existe entre pai e filho.

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Nesta narrativa de atmosfera noturna, a escritora mantém-se fiel à linha das histórias introspectivas que a consagraram. Hetzel demonstra grande sensibilidade para abordar os medos de uma menina que, de repente, se vê sem a presença do pai no dia a dia, sentindo sua ausência particularmente antes de dormir, momento  em que ele lhe contava histórias. Sem saber o que se passa com o pai, a menina se apega ao livro que ele lia e à história interrompida de um lobo, na tentativa de superar os problemas que a afligem. A figura do lobo, recorrente na história da literatura infantil, é explorada em todo seu poder simbólico e com múltiplos sentidos, positivos ou negativos: o lobo como aquele que enxerga em meio à escuridão da noite; o lobo guerreiro, que enfrenta as adversidades e inimigos; o lobo que desperta medo; o lobo feroz, masculino, sedutor. As suaves ilustrações de Elisabeth Teixeira, em estilo clean e tons frios, harmonizam-se perfeitamente com a melancolia do texto verbal e o tom contido da narrativa. (João Ceccantini)

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Uma história terna, dolorida, numa linguagem extremamente poética. Penso que tocará os sentimentos de ansiedade, medo interior, tristeza – tão comuns no universo emocional das crianças e tão pouco explorado na literatura infantil contemporânea. Bela ilustração – Ótimo projeto gráfico. (Isabel Maria de Carvalho Vieira)

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Embalada no belíssimo projeto gráfico de Silvia Negreiros e com ilustrações de Elisabeth Teixeira, a narrativa O lobo, de Graziela Hetzel, emociona os leitores. Concebida em dois tempos psicológicos, a história, dentro da história, nos fala do carinho paterno de ler para a filha, na hora de dormir. A protagonista Lílian vive breves momentos de ternura, muito marcantes, e que antecedem o drama familiar. A repentina ausência masculina – o pai que se foi sem despedidas –, a simbologia do lobo, o mistério, a angústia da mãe, a sensação de abandono, pré-figurada na leitura do livro que é interrompida, nos fazem viver uma situação inicial de equilíbrio, seguida de um espaço tempo de perda e a recuperação. Espaços mágicos, oníricos, de suave beleza, de uma literatura escrita por quem já é mestre na arte de narrar.

Vivenciar o amadurecimento do talento literário de Graziela Hetzel é um prazer que se renova a cada livro publicado, que surpreende os leitores. (Isis Valéria Gomes)

 

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O menino e o tempo

Uma pedra, um rio e um menino. A conjunção desses três elementos permitiu à autora construir uma metáfora sobre o tempo e sobre o processo de iniciação do ser humano às grandes questões existenciais — o que houve antes e o que haverá depois de nossa existência individual e coletiva? Como um ninho, a pedra abriga Gustavo, que vê o rio passar. Chiando, “o rio corre para sempre e nunca mais”. O tempo passa. O sol, batendo no ninho de pedra, traz a imagem de um fóssil de samambaia. Fósseis, dinossauros, gigantes. Isto já passara, como o tempo… Como Gustavo passaria. Descoberta a angústia do tempo, Gustavo aprende a brincar com ele. O tempo… dia e noite alternam-se no planeta. Calendários marcam tempos diferentes, nem sempre datando a chegada do ano 2000. Gustavo cresce e o ninho de pedra já não acomoda tão bem o seu corpo. O rio de água, o rio do tempo e o rio da vida de Gustavo correm. Para onde correm a natureza, o homem e o tempo? Em linguagem concisa, agradável, Bia Hetzel traz-nos questões sobre o tempo, mais sob a forma de reflexão do que sob a forma de uma história propriamente dita. Por isto, a leitura deste livro será enriquecida com a mediação de um adulto, a partir de sua própria iniciativa ou das indagações suscitadas pelo leitor. As ilustrações de Graça Lima em páginas inteiras, muito coloridas sobre fundo negro, realçam o livro, criando vivo contraste com as  páginas em branco onde há o texto escrito e pequenos desenhos de traços simples. (S.M.F.B. / Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, v. 10, 1999)

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O menino, o cachorro

O texto singelo e cativante de Simone Bibian, acompanhado das ultracriativas ilustrações de Mariana Massarani, toca em um dos sentimentos mais profundos das crianças: a vontade de ter um animal de estimação. A obra cativa e encanta principalmente os leitores iniciantes, que se divertem com o objeto-livro e com o recurso gráfico utilizado pela autora de “inverter” o olhar a partir da metade do livro. Assim, na página que seria o final da narrativa, começa a mesma história contada do ponto de vista de um filhote de cachorro que tem como grande sonho ter “um menino de estimação”…

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Um livro encantador que aborda um problema bastante comum da infância: o desejo de ter um cachorro como amigo e companheiro. Problema, porque significa mais trabalho para os pais, que nem sempre estão dispostos a isso. Simone Bibian inova contrapondo à figura do menino um cachorro que nasceu numa casa aonde não havia crianças e que ansiava por uma a quem pudesse acompanhar nas brincadeiras. Texto enxuto e direto muito bem expresso nas imagens divertidas e limpas de Mariana Massarani e na diagramação original do pequeno volume. (Laura Sandroni)

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Pedro, menino navegador

Desde a capa, o leitor é mergulhado no azul do oceano que separa o continente europeu do latino-americano. Inicialmente, há páginas internas maiores que revelam a distância entre os continentes europeu e latino por causa da imensidão do então inexplorado Oceano Atlântico. No azul da noite do mar encontramos o texto verbal que nos conta da vontade dos meninos portugueses de navegar. Diz o texto: “O mar, cheio de mistérios convida a desafiar seus perigos. /E foi assim que Pedro cresceu: ouvindo falar do mar,/ das conchas, dos encantamentos e das sereias.” Quanto ao aspecto gráfico, acontece algo interessante no livro: o tamanho da página dupla começa a diminuir conforme a história avança e as caravelas de Pedro e a América do Sul se aproximam, porque ele veleja em sua caravela rumo à terras brasileiras. Na página central, a menor delas, o azul do mar e do céu que até então predominara, começa a se mesclar ao amarelo da terra brasilis, terra que já tinha dono, ou seja, os tons ocre invadem a página fazendo ressoar a cor de pele parda dos indígenas. Portanto, abruptamente, Pedro descobre que a terra já tinha dono — foi só dar de cara com seu povo. Neste encontro, Pedro ambiciona riquezas, enquanto os indígenas se contentam com uma possível troca entre culturas diferentes. Pouco antes de aportar na nova terra, Pedro teve um sonho que o sobressaltou: um indígena o recebe com tristeza nos olhos. Anos mais tarde, o mesmo Pedro que ambicionava riquezas faleceu. Dizem que foi de malária. O texto questiona isso e deixa a questão: “Será? Talvez Pedro tenha morrido aprisionado/ na tristeza daquele sonho que nunca o abandonou…” Esta história bela, triste e salgada como as águas de Portugal contam do primeiro contato dos índios brasileiros com o povo branco, uma longa história de sangue vermelho, suor amarelo da terra e a tristeza da cor do mar. Uma história muito bem-vinda na época da comemoração dos 500 anos do país pela originalidade do texto, do projeto gráfico e das ilustrações tão bem realizadas. (A.L.O.B. / Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, v. 11, 2000)

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Pega esse crocodilo!

A fruteira Falguni encontrou um crocodilo no canal e a vila entrou em pânico:

— Pega! Pega esse crocodilo!

Mas quem será que pode com o bicho?

Probin, o policial, com seu bastão?

Doutor Duta, o veterinário, com uma injeção?

Será que o fortão Baianac Sing resolve essa encrenca?

Ou esse crocodilo penetra não há quem vença?

Mas eis que surge a questão: quem disse que o crocodilo deve ser capturado?

 

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“É um dos meus favoritos. Os versos curtos e ritmados (…) misturam-se perfeitamente com o traço forte e popular de Biswas.” (The Horn Book Magazine, Boston, MA, EUA)

 

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“Pegue esse crocodilo… antes que ele desapareça! Se eu tivesse que dar uma nota a este livro, ela seria 5 estrelas.” (The Deccan Herald, Karnataka, Índia)

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Poesia essencial

Essencial é a poesia deste livro porque busca representar a essência de uma obra.

É essencial, também, porque representa uma obra carregada de sentimentos poéticos nascidos de uma percepção acurada da essência da vida e do universo.

E é essencial, sobretudo, porque revela-se em uma linguagem-emoção simples e penetrante, tal qual um veio d’água que brota na escritora e segue seu caminho no leitor.

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Rosalina: a pesquisadora de homens

O ano de 1991 foi muito importante para a pesquisa das baleias-jubartes no Brasil. Em Abrolhos, a baleia Rosalina, que já havia sido observada em outros anos, foi avistada pela terceira vez, comprovando que a região era a mais importante área de reprodução e cria da espécie no Atlântico sul ocidental. No Rio de Janeiro, uma baleia que havia encalhado foi salva — primeiro caso conhecido desse tipo de salvamento na América do Sul —, agitando a população.

A partir destes fatos, em 1994, Bia Hetzel resolveu escrever um texto que informasse sobre a presença das jubartes em nossas águas e ao mesmo tempo divertisse os leitores. Assim nasceu um sucesso. Além de ter conquistado dezenas de milhares de leitores, Rosalina recebeu em 2005, na categoria Autor Revelação, o Prêmio Jabuti, da CBL, e a Menção Altamente Recomendável da FNLIJ.

Com seu texto delicioso e lindas ilustrações, Rosalina se tornou um clássico por trazer questões e valores cada vez mais atuais e importantes. Que as novas gerações possam mergulhar nessa história e encontrar a famosa baleia, que continua a visitar os mares brasileiros em pleno século XXI!

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Seu Vento soprador de histórias

Com rimas, música, poesia e um profundo conhecimento da tradição oral e do folclore infantil, a autora recria o imaginário que envolve as brincadeiras de roda, as cantigas e cirandas. Uma deliciosa parlenda. Um jogo literário e lúdico no qual o Vento cirandeiro, alquimista da energia, ora trava línguas, ora arranca suspiros e risadas da criançada. Um sopro de fantasia e festa na vida do leitor. Um antídoto contra as angústias da vida moderna. Uma brisa mansa e serena para unir as mãos de adultos e crianças na ciranda da vida e resgatar o melhor da infância.

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Um Pinguim Tupiniquim

Orozimbo é uma das paixões da minha vida literária. Nosso romance dá um filme. A história do pinguim adolescente, narrada por ele mesmo, me fisgou na primeira linha. Adoro bichos marinhos, mas o que me pegou nesse cara bicolor foi seu lado inteligente, sua sinceridade brutal, suas fraquezas quase humanas, sua consciência de que a vida besta programada pela genética e pela colônia não o faria feliz. Orozimbo teve a coragem de fugir da Antártida como clandestino no barco do Amyr Klink para conhecer o lado colorido do mundo! Sozinho e desgarrado, armado só com um pedaço de esparadrapo e uma navalha, ele foi lá conferir.  Foi lá para fazer o que ninguém espera de um pinguim:  saiu em busca de seu verdadeiro eu. Não bastasse tudo isso, Orozimbo me faz rir como poucas pessoas. Seu humor é coisa fina. Então, no dia em que esbarrei numa Festa Literária de Paraty com a Índigo, a escritora sensitiva que tinha psicografado a narrativa de Orozimbo, fiz uma declaração pública de amor a ele. Berrei, em meio a uma plateia atônita, como uma pinguina apaixonada, dizendo que sonhava ter meu querido na Manati, uma casa literária que era tão a cara de Orozimbo que tinha até uma geladeira para ele chamar de sua. E deu certo! Meu chamado despertou Orozimbo dentro da Índigo. A partir daquele dia, por meses a fio ela perdeu o sono e gastou os dedos teclando a narrativa do pinguim toda de novo, acrescentando detalhes e personagens, oferecendo novos ângulos dessa história fenomenal. E agora o que você tem em mãos é o final feliz desse romance. Orozimbo hoje mora na nossa geladeira, mas gosta de dar suas voltas pelas mãos de leitores sortudos e descolados. Aqui está, em carne e osso, folha e tinta, a versão 2.0 turbinada do Pinguim Tupiniquim. Algo me diz que ninguém segura mais esse bicho… (Bia Hetzel)

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Uma alegria selvagem: a vida de Santos-Dumont

Parece incrível que uma personalidade tão fascinante quanto a do Pai da Aviação não tivesse ainda merecido biografia para o público jovem, não apenas por tratar-se de um grande brasileiro, mas porque seu trabalho sobre a dirigibilidade dos balões e do voo do mais-pesado-que-o-ar levou a humanidade a um dos maiores e mais importantes avanços científicos do século XX.

Além do tema tão importante, o livro chama a atenção pela beleza do projeto gráfico de Silvia Negreiros, com alegre variação de cores do papel  de ótima textura. As ilustrações coloridas de Graça Lima são de grande qualidade e extremo bom gosto: verdadeiros quadros centralizados na folha de abertura de cada capítulo e pequenas vinhetas, em bico de pena, espalhadas pelo texto. Mas um detalhe é especialmente significativo: desde o início da narrativa surge na margem um balão que sobe milimetricamente pelas páginas até alcançar o topo, ao final do livro. É o resumo da vida e da luta de um grande homem que abriu o caminho do espaço para a humanidade.

A editora Manati tem-se dedicado especialmente à literatura para crianças e jovens e alguns de seus títulos foram premiados pelo cuidado com que aliam bons textos ao tratamento gráfico elaborado. Uma alegria selvagem: a vida de Santos-Dumont, de Bia Hetzel, é mais uma afirmação desse duplo conceito. (Laura Sandroni)

 

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Este livro apresenta a biografia de Santos-Dumont mostrando diversos aspectos da sua rica personalidade. A autora se baseou em uma pesquisa histórica cuidadosa sobre o tema. Sem confundir ficção histórica com biografia, ela mostra fatos surpreendentes e pouco conhecidos sobre a vida do biografado. Nascido em 1873, membro de uma família muito rica, proprietária de diversas fazendas na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, o pai de Santos-Dumont era francês. Por isso, desde a infância ele terá dupla cidadania. Desde menino, Paris era sua segunda cidade após o Rio de Janeiro. Começou a estudar Mecânica ainda adolescente, observando e consertando as máquinas que beneficiavam café, nas fazendas da família. Quando seu pai adoeceu, todos se mudaram para Paris, para que o patriarca pudesse se tratar com os melhores especialistas da época. Na capital francesa, Alberto visitou junto com seu pai uma exposição de máquinas no Palácio das Indústrias. Esse fato mudará sua vida. Alguns anos depois, ele ganhará sua emancipação jurídica e uma quantia em dinheiro suficiente para sustentá-lo para o resto da vida. Assim ele poderá se dedicar a seus estudos prediletos. Será aluno dos melhores professores e pesquisadores de Física, Engenharia e Mecânica. Sua dedicação à pesquisa não o impede de participar da fervilhante vida social parisiense: amigo de Toulouse-Lautrec, do joalheiro Louis Cartier e do príncipe Rolande Bonaparte, Santos-Dumont era considerado um membro da  alta sociedade francesa. Será ele o organizador da primeira corrida de carros da França e um dos fundadores do Aeroclube da França. Suas primeiras experiências aéreas foram realizadas com seu colega inventor Lachambre, a quem Santos-Dumont se ofereceu como piloto de provas.

O livro apresenta uma bela descrição do que foi seu primeiro voo em um balão esférico: “correndo junto com o ar, a sensação que se tem é de estar imóvel. Pode-se jurar que não é o balão que se afasta, mas sim a terra.” O leitor também saberá que Santos-Dumont construiu diversos aparelhos até alcançar a perfeição do 14-Bis. Este é um aspecto interessante da obra, pois fica evidenciado que as grandes invenções científicas necessitam de esforço e persistência por parte do inventor. Uma das ideias que Santos-Dumont defendia é que os erros faziam parte de qualquer experiência. Sempre contando com o apoio do Aeroclube francês, construirá uma série de dirigíveis, com motores cada vez mais potentes. O leitor também apreciará certos fatos prosaicos da sua vida. Por exemplo: certa vez, Santos-Dumont teve que fazer uma aterrissagem forçada nos jardins do palácio dos Rotschild, uma das famílias mais ricas da França. Em outra ocasião, quando estava fazendo os primeiros testes com o 14-Bis, para melhorar a estabilidade do aparelho, Santos-Dumont colocou um jumento puxando o aeroplano até a nave ganhar altura e subir ao céu. O 14-Bis foi o primeiro voo do mundo mais pesado do que o ar. Os parisienses aclamaram o brasileiro em 23 de outubro de 1906 nos Campos de Bagatelle. Desse modo, o grande inventor ganhou o Prêmio da Aviação oferecido pelo próprio presidente da república. Outro aspecto interessante do livro é que em certos trechos, a autora apresenta passagens do diário de Santos-Dumont. Há apenas uma ressalva nesta obra: algumas descrições a respeito dos aparelhos seriam mais esclarecedoras se viessem acompanhadas por algum desenho. Por exemplo: “Alberto entalhou as lâminas triangulares com outras de alumínio para fazer a hélice do 14-Bis. E para reforçar as extremidades usou cordas de piano ao invés de fibra vegetal. Os desenhos de Graça Lima, apesar de serem bonitos e delicados, são muito pequenos. Descrições como esta apresentada acima necessitam de ilustrações maiores e mais detalhadas. A autora também é sensível para descrever os últimos anos de vida do grande inventor, quando este começou a padecer de uma grave doença neurológica. Há uma frase que Santos-Dumont costumava dizer durante as suas decolagens: “Larguem tudo, que eu vou subir!”. De certa forma, ela sintetiza de maneira marcante o que foi sua vida. Livro imperdível para adolescentes com domínio de leitura, jovens e adultos. (A. C. / Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, v. 14, 2003)

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Zan

Que nome mais esquisito, não é? Pois quem conhece o personagem deste livro descobre que ele não poderia ser mais Zan.

Zan é um cara estranho e apaixonante, quase mágico. A cada nova leitura ele se mostra de um jeito diferente, mais bonito, mais misterioso. Já li as palavras e as imagens desta história muitas vezes e até hoje não sei se Zan é criança ou adulto, se tem olhos verdes ou castanhos, se é alto ou baixo, se gosta de pipoca doce ou salgada. Não sei, mas adivinho.

A gente nunca sabe tudo sobre alguém, nem sobre nós mesmos. Quem sabe se é por isso que, às vezes, o que mais nos encanta numa pessoa é o que ela não diz, o que ela nos deixa adivinhar, o que ela nos faz descobrir de estranho e misterioso sobre nós mesmos? Sei lá! Só sei que gosto muito e cada vez mais desse tal de Zan.

 

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